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Simone de Beauvoir e Jean Paul Sartre, no Rio.

terça-feira, 23 de outubro de 2007


O candidato Cardozo concede o inexistente e sonega o necessário

A carta do candidato José Eduardo Cardozo menciona - muito de passagem - três bandeiras, entre outras: “desenvolvimento, democracia participativa, construção de uma nova ordem internacional...”. Como presidente do PT, que ele aspira ser, não se sabe bem o que o deputado Cardozo pretende com essas consignas. Ou seria apenas para influenciar pessoas e fazer amigos?

O candidato Cardozo – ao PED de dezembro – esteve neste final de semana circulando pelo interior do Rio Grande do Sul em campanha eleitoral. Prometeu que vai implantar o Orçamento Participativo (OP) no Partido dos Trabalhadores.

No justo afã de influenciar pessoas e fazer amigos, Cardozo – voluntária ou involuntariamente – está induzindo a militância ao erro. Confunde OP com democracia participativa. Ora se refere a um conceito, ora se refere a outro. E não são a mesma coisa. A diferença entre OP e democracia participativa é a diferença entre o excedente e o necessário. O OP só é possível se estabelecer no reino do excedente econômico. A democracia participativa é condição essencial na república do necessário (precisamente o caso do PT, hoje).

O PT, deficitário, economicamente insolvente, com saldos devedores agudos, quer - na proposta de Cardozo – implantar o orçamento participativo, mas não se menciona a democracia participativa. Ou seja, concede o que não tem e sonega o que ainda lhe resta – a necessidade. José Eduardo veio prometer o que Cardozo não pode cumprir. Prometeu participação nas decisões de um déficit orçamentário brutal, mas sonegou menção à participação democrática nas decisões políticas da legenda.

OP e democracia participativa podem ser a mesma coisa, mas, no caso referido por Cardozo, não são. O significante de Cardozo não corresponde ao significado de José Eduardo. E nessa diferença mora a astúcia, mãe da retórica ligeira e dissimulada. O OP se justificaria, como gatilho da expansão dos espaços democráticos, se o Partido fosse um ente de produção ou uma autoridade de política macroeconômica, como é o Estado liberal. Mas não, o Partido é mero agente microeconômico (insolvente), onde o OP faria escassa ou nenhuma diferença.

A democracia participativa no Partido dos Trabalhadores implicaria – de plano – em desatrelar o Partido do governo do presidente Lula. Por isso Cardozo não fala de democracia participativa, mas astutamente fala em OP, fazendo crer que sejam consignas convergentes. Não são convergentes, neste caso, são paralelas.

O Banco Central do Brasil desfruta de mais autonomia no governo Lula do que o próprio Partido dos Trabalhadores. Eu já vi o presidente Lula chamar o presidente do PT, Berzoini, de “aloprado”, e também vi a reverência com que ele trata o presidente do BC, o tucano Meireles. Caso Cardozo estivesse de fato imbuído da implantação de uma autêntica democracia participativa deveria começar a falar sobre isso – a heteronomia do Partido ao Planalto. A degenerativa incapacidade de reagir frente ao óbvio ululante.

Por exemplo, já que o candidato Cardozo fala em “desenvolvimento” na sua carta à militância: dias atrás o BC decidiu estancar a queda da taxa de juros, mantendo-a em irresponsáveis 11,25%. Uma atrevida conspiração contra o PAC. O sistema financeiro se incomoda com o PAC e com o desenvolvimento, por isso se insurge contra o próprio núcleo estratégico do governo Lula. Eu, nem ninguém que não seja deficiente auditivo, jamais escutamos o deputado Cardozo usar a tribuna da Câmara para protestar contra o BC.

Por exemplo, já que o candidato Cardozo fala em “construção de uma nova ordem internacional”, o que fazem as tropas militares brasileiras no Haiti? Até se admite que estivesse lá, durante a anomia do Estado e de Governo, mas agora que o país tem um governo constituído e soberano? É incompreensível! Os brasileiros estão lá de maneira absolutamente acrítica, como um exército de ocupação na terra de miseráveis. Para quê? Para agir como uma Tropa de Elite nas vielas pobres de Porto Príncipe? Os cubanos e venezuelanos também estão lá, mas estão de forma solidária e internacionalista, com contingentes de médicos e educadores, tratando o mais alto índice de HIV do mundo, 5,6% da população, alfabetizando e ensinando cidadania à massa de miseráveis e excluídos (onde quase todos são excluídos). A cobertura vegetal do Haiti não chega a 2% do território, eles precisam de florestas nativas e de água. O governo Lula deveria retirar os militares e mandar geólogos e engenheiros florestais para, aí sim, prestar ajuda humanitária efetiva.

Recentemente o ministro Nelson Jobim esteve no Haiti. Se supôs que iria modificar a atuação brasileira por lá, mas nada, foi fantasiar-se de farda alheia e desfilar empertigado e como mangolão que é. Também sobre esse tema importante não escutei o deputado Cardozo fazer um grão de crítica. Mas ele insiste – retoricamente – pela “construção de uma nova ordem internacional”. Words, words, words! – já dizia o vate de Stratford-upon-Avon.

Por todas essas, e muito mais, é que considero o próximo consulado petista a ser eleito em 16 de dezembro como o mais semelhante ao de Leonid Brejnev no PCUS. Como se sabe, Brejnev foi portador das esperanças de desestalinização do PCUS [no caso do PT seria a desdirceusização], especialmente depois de Nikita Khrushchov ter feito as graves denúncias dos crimes do Guia Genial dos Povos, mas não só frustrou a todos, como ainda cometeu os desatinos de Praga, em 1968, e no Afeganistão, em 1979. Sem falar no “balaio de gatos” (nas palavras de Che) que era o Comecon, no fenômeno do expansionismo soviético, de trocas desiguais, de concorrência e de submissão do Leste europeu à URSS, etc, etc.

Como signatário da “Mensagem ao Partido” sinto-me no direito (e dever) de fazer essas breves observações. Não faço o mesmo com os demais candidatos ao PED porque acho-os ou inconsistentes eleitoralmente ou perdidos para a causa estratégica das transformações sociais – como é o caso do “aloprado” (palavras de Lula) e liberal Berzoini.

5 comentários:

Carlos Eduardo da Maia disse...

O OP é uma forma de democracia participativa que pode até ser salutar no âmbito municipal. Ninguém nunca conseguiu implantar OP em regiões maiores, como Estados ou na União. Não conseguiu, porque se trata de missão impossível. Democracia participativa é importante, sob duas formas: referendo e plebiscito e ponto final. O que geralmente ocorre na democracia participativa é a participação quase exclusiva de minorias participativas que se acham no direito de expressar sua voz como se fosse da maioria da sociedade -- que sequer foi consultada.

zeca disse...

Cala a boca, pelegão!

zeca disse...

breves mas contundentes observações, feil

Juarez Prieb disse...

Muito bem, Feil, de qualquer maneira eu vou votar no deputado paulista, embora considere como tu que não tem mais jeito esse tal de pt. O sonho acabou, como já disse alguém anos atrás.

Matusalém Silva disse...

é mesmo!

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