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Morreu hoje (23/out/2014) o grande artista René Burri, um fotógrafo inesquecível.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008










Dona Yeda parte para a ignorância

Policiais militares invadiram ontem um assentamento do Movimento Sem-Terra em Sarandi (RS). A invasão ocorreu depois de a Brigada Militar descumprir um acordo com a Polícia Civil, Ouvidoria da Segurança Pública do Estado e a Justiça da comarca de Carazinho. A informação é da Agência Chasque.

A ação da Brigada contou com o respaldo do secretário de Segurança Pública José Francisco Mallmann e da governadora, Yeda Crusius. Os soldados cumpriam um mandado judicial de busca e apreensão, referente a denúncias de objetos que teriam sumido da Fazenda Guerra, em Coqueiros do Sul, depois da ocupação simbólica na segunda-feira passada. De acordo com o subcomandante da Brigada, coronel Paulo Mendes, os sem-terra queriam impor restrições à entrada dos policiais na área, o que não daria segurança (!) suficiente aos soldados.

Já a integrante do MST, Neiva Santos, classifica o ato como um abuso de autoridade, pois os sem-terra estão participando de um evento pacífico, que é o seu 24º Encontro Estadual. Além disso, ela condena o fato de ter sido mobilizado um efetivo tão grande, que poderia ter resultado em um massacre. Cerca de mil policias militares (foto) foram deslocados até a área.

......

Hannah Arendt, que não pode ser acusada de nenhuma marxista leviana, disse certa vez que nós vivemos numa sociedade fundada sobre o trabalho, mas que deixou de poder oferecer aos seus membros aquilo pelo qual ela se estruturou e por onde organizou o seu discurso. A violência da polícia militar da governadora Yeda, mesmo que não tenha ferido fisicamente alguém, manifestou-se de forma simbólica ontem. Mil policiais militares representando o Estado, e sob a alegação ideologicamente usinada por um agente do Judiciário de procurar objetos furtados, constrangeram cidadãos e cidadãs que lutam para buscar na terra a sua expressão no trabalho.

O que se viu ontem foi a violência instrumental pura. Os agentes políticos do Estado – governadora e secretário de Segurança – de forma combinada abandonam deliberadamente a busca do consenso e convergem para um estado de violência no sentido de criminalizar um movimento social com a intenção espetacularizada de rebaixá-lo frente à chamada opinião pública. Isso é violência pura como controle da produção social. O poder deixa de se exercer de maneira consensual entre partes que antes podiam ser divergentes entre si, e “a violência impõe-se de modo a calar os opositores e a destruir a pluralidade dos participantes” – como diria Arendt.

Com essa performance edificante de ontem, dona Yeda apenas ratifica o que se aprendeu dela nesses últimos doze meses: como não tem preparo para impor-se pelo consenso, pelo diálogo político continuado, acaba querendo se impor pela coerção, força e ignorância embrutecedora.

Dona Yeda é um perigo.


As duas fotos de baixo são de Tadeu Vilani/Agência RBS, somente essas. As demais fotografias são de Leonardo Melgarejo.

11 comentários:

Hélio Sassen Paz disse...

Cristóvão,

Concordo 100% com tudo o que disseste. Todavia, o MST precisa ser imediatamente instrumentalizado para produzir efeito e sentido em seus debates de forma que a sociedade tenha acesso ao verdadeiro conteúdo de suas propostas.

A atual forma de luta não constitui um modus operandi capaz de torná-lo aceitável, crível e nem sequer discutível através da ágora reconhecida pela sociedade urbana que é a mídia corporativa.

Qual é a dificuldade disso? É saber que não há mídia alternativa com um tamanho suficientemente grande para reverberar as demandas dos movimentos sociais para a sociedade. Todavia, os 80% de habitantes das cidades desconhecem totalmente essa realidade, tida como algo "menor" dentro do tecido social.

A resistência pós-moderna deve ser descentralizada e deve ter como ferramenta (meio e não fim) dispositivos sociotécnicos (blogs, torpedos via celular, listas de e-mail) cuja finalidade é agrupar pessoas de fora do movimento para manifestações urbanas e, também, para divulgar as ações do movimento com liberdade e de maneira viral.

Invasões não sensibilizam ninguém e trazem um prejuízo incalculável para os movimentos sociais, por mais razão que eles tenham. Afinal de contas, vivemos sob um regime da censura do pensamento único, de um RS policialesco e de um governo federal que enxerga gigantismo e industrialização massivas como fontes de renda, emprego, impostos e desenvolvimento, ao invés da sustentabilidade do meio ambiente para as gerações futuras.

Eles querem resultado agora, não amanhã.

[]'s,
Hélio

Eugênio disse...

1000 brigadianos!!!!!!!!
A Yeda é a cara do RS e o RS é a cara dela. Quem disse q o nosso povo ñ sabe escolher. Um gaúcho ñ poderia ter feito melhor!!!!Os "homens de mau" precisam ser levados ali, na rédea curta. Não dá pra deixar barato o desaparecimento das bujigangas da fazenda. Já os "homens de bem" tem suas dívidas de 140 milhões prescritas por "esquecimento" do poder público.
Quanto baixesa ainda vamos ter q suporta???

Anônimo disse...

O MST só ganha inimizades com essas invasões. Eu admirava o movimento, mas mudei minha visão, principalmente depois do ataque à Aracruz e dessa lógica de posar de vítima quando a coisa endurece. Sem falar que, na prática, os assentamentos se constituem em um dos maiores degradadores ambientais deste país.
Léo

Eduardo Martinez disse...

É urgente acelerar a construção além de "blindar" as instituições democráticas já devidamente consolidadas. Tendo essa como primeira bandeira: garantir e popularizar a permanência e o constante aperfeiçoamento do processo democrático entre nós.

É preciso não descuidar da "materialização" de uma instituição subjetiva da democracia: o pertencimento cultural das conquistas sociais – conquista não é concessão nem favor.

Enquanto não houver outra forma efetiva de garantir essa impressão digital na sociedade, na luta contra a omissão do estado diante da exclusão social, a invasão política deve e vai continuar sendo o único instrumento capaz de movimentar o dinossauro estatal (?), dependente químico de bases parlamentares e seus efeitos colaterais: os acordos por cargos e espaços de decisão.

Há uma cratera institucional ainda a ser denunciada: o poder judiciário jurássico no tamanho, na lentidão e, principalmente, no instinto primitivo, pragmático e corporativo de classe.

O que fizemos no ano passado, o que estamos fazendo no gerúndio, é ou não uma invasão dos latifúndios improdutivos da mídia para impulsionar a sociedade a dar mais um passo afirmativo em direção ao aperfeiçoamento democrático?

Talvez o objetivo não deva ser apenas convocar a sociedade a apoiar e divulgar as ações do movimento. Uma das coisas que mais me marcaram na vida foi descobrir que a cultura Guarani acredita que nos não temos um nome, nós somos o nome. Por lo tanto, meu nome não é Eduardo, eu sou Eduardo. Pelo mesmo raciocínio, acho que devemos trabalhar para a sociedade ser o que é, O PRÓPRIO MOVIMENTO, não apenas ter conhecimento e um certo grau de comprometimento com ele.

Parece que nosso esforço comum não tem nos levado nessa direção.

Anônimo disse...

covardia pura

AC Callado disse...

Leo, isso é papinho furado. Tu nunca engoliu o MST, confessa. Agora fica com essa desculpa esfarrapada. O MST não precisa de fãs como um cantor pop. O MST precisa é de solidariedade dos partidos de esquerda e dos demais movimentos sociais. Quem disse que o movimento social é pop? Uma gente sofrida, fedida, suada, mal nutrida, sem charme, mas quem exigir isso está com as mesmas réguas para medir o BBB às oito da noite.
Movimento social é a realidade que bate à sua porta. E não é para pedir pão velho ou fazer algo circense à classe média que quer ver espetáculo.
Só a burguesia compreende isso, por isso manda polícia com armas pesadas e não fica pra brincadeira.
Só a classe média bunda mole se escandaliza, tanto com a truculência da polícia, quanto com a feiura dos manifestantes.

Anônimo disse...

O MST tem a vantagem de ser o principal movimento social desse país e, talvez, o único respeitado no mundo todo, menos aqui, infelizmente. Mas, aqui valorizamos mais vagabundos (as) que praticam alpinismo, com senador ou em "ratoeiras" da Globo.

A luta é dura, demorada, mas está avançando nas consciências dos humildes e explorados.

Viva o MST!

armando

Anônimo disse...

Ate agora!!! passados mais de 24 horas do fato eu ainda não consegui entender o que verdadeiramente aconteceu, 700 ou 1000 policiais é um monte de gente, é um efetivo enorme, olha o quanto isto custo para o erario publico, mas afinal para que? tche gurizada!!! a coisa é tão absurda, tão fora de sentido, que verdadeiramente não da pra entender, e para que? para buscar quinqilharias? eu ja participei de varios atos e ocupaçoes do movimento, mas a direita que e saiba nunca tinha entrada as "ganhas" num encontro, nunca tinha ate aqui interrompido uma discução e outra coisa qe me chamou atenção, o movimento ate andava calmo nos ultimos meses, parece que foi algo premiditado, estranhissimo!!!!! Em função do meu trabalho atual, não tenho acompanhado as ações in loco do movimento nos ultimos tres anos, mas sigo atento e acreditando, MAS QUE FOI ESTRANHO AQUILOU ONTEM FOI!!!!!!! PAMPEANO

eugênio disse...

Pampeano, é simples: a Yeda queria o confronto e, se possível, com mortes. A idéia é dar um "corretivo" no movimento social. Essa mulher é completamente desequilibrada e ainda veremos uma desgraça acontecer até o final de seu mandato.

Anônimo disse...

Olha, não dá pra agüentar esse discurso de classe média dizendo que os assentamentos destróem o meio ambiente. E quem não destrói?? Quem separa o lixo de casa para ser reciclado?? Quem troca o carro pelo ônibus, algumas vezes na semana, para diminuir o lançamento de CO2? Quem suporta ficar sem ar condicionado nesse calorão pelo meio ambiente? Quem usa bolsa de pano para não evitar as sacolas plásticas? Quem poupa água enquanto lava carros e escova os dentes?

Não venham jogar a culpa nos assentados e no MST por um problema que é de todos. Podem não ser O exemplo, mas pelo menos ajudam o meio ambiente mais do que muita gente que vive na cidade. é só ir em assentamentos para ver a produção agroecológica, que vai de amora a arroz.

Ao invés de ficar criticando, vamos mudar nossas casas. Eles estão longe da perfeição, mas pelo menos estão mais avançados nesse debate do que nós, os urbanos.

Raquel

Anônimo disse...

1000 brigadianos de escudo, arma e cacetete, podem fazer um estrago daqueles, uma chacina. Numa situacao tensa dessas, basta dar a ignicao e o pau vai comer. A conclusao que eu chego é que o MST soube se portar bem, sem demonstrar medo nem agitacao. Isso, é claro, nao garante que estaram a salvo no futuro. Marcelo

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